
Ainda sem se emancipar do estado de vigilia, ou iniciar a miragem fidedigna do sonho, um suposto rei soba mandarim do seu sofá teve prole. Pegou na mão do miúdo e deu-lhe a conhecer as maravilhas da óptica da ilusão:
- Meu querido filho, vede as estátuas da vida. Percebe que se movem, que esbracejam. Que tratam os filhos afectuosamente e lhes repetem as semelhantes deixas que te transmito.
Era tarde de outono, no jardim por onde subiam. Inúmeros poliam estátuas de gente muda. As folhas tombadas se juntavam em construções monstruosas de palácio possivel. Um macaco deu a mão a uma senhora de aspecto decente e ambos juntavam folhas com o pé.
- Estão aqui as grandes estrelas do cinema concreto. Dizia o soba, ora afagando a cabeça do símio ora lhe dando carolos.
Desmaiaram simultaneamente quando se tornou evidente que estavam perante os fundadores da nação. Os quatro, rebolando em paralelo, entraram pela porta do palácio unissono e ficaram em função de éditos. Em suma demente de dogma e exemplo. O macaco esticava as suas pernas em cima do peito do rei e a senhora desenhava um banco num papel de jornal.
- Os parentes desmaiados. Disse o filho dentro do palácio.
Os oito pés juntaram mais folhas e imitaram cem por cento a academia mais sumptuosa. Licenciavam-se montanhas de hómunculos, tinham aulas resmas de compostos. Na cátedra de lógica um padre de batina suja doutrinava com a história de alguém que escorregava do telhado.
- Reparem como o limpa-chaminés escorregou e fugiu para cima. Não existe nenhuma fálacia neste argumento. Ele está imóvel meus meninos. O que se mexe é o não-ele.
Foi assim que os palácios as casas e as construções do intento se prolongaram como apupos histéricos desde o génesis. Foi assim que os pés com chulé juntaram folhas pela eternidade. As grandes construções, solidificadas por ripas de caixotes de fruta, floresceram, e nelas se criaram obras mágnanimes e enganos de pâpillon.
O pai, levando o filho pela mão foi a uma oficina dessas buscar barro e disse filho:
- Chegará o dia em que improvisarás daqui os teus prolongamentos e plasticinarás as relações da tua intimidade. É este o teu reino de êxito.
Não era a primeira vez que a familia se tinha reunido, criações mútuas e formas puras. No papel de jornal, sentou-se um homem completo e aplaudiu. O menino, levando um par de bofetadas, viu nele seu estar adulto e viu nele a sombra do macaco sério.
O soba do principio fora empurrado pelas sínteses contínuas, abandonado pelo filho, raspado pela terra, usando palitos para manter as pálpebras bem esbugalhadas (nunca seria demais o arbitrio errático). Ardeu o palácio de folhas e se inaugurou o palácio de folhas. Jorraram esguichos de esperma para o vestido da senhora. No jardim, a chusma de velhos atirava valetes e damas por entre a apoteose da ilusão. O ocasional sórdido desenhava caixões depois da coletânea de bancos.
- Ganhei a bisca meus malandros! Exclamou o velho de orelhas vermelhas.
Que construção, que arquitectura. Coisas do século antes do século. Ontem e amanhã onde pais levavam filhos pela mão, como os seus tinham feito. Onde sobre a lareira, já longe do jardim, o busto disforme e adunco correspondia Ser vivo.
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, construções reais repetidas, espancamentos. Antes do outono acabar um papagaio arrotaria sonaremente grandes jardas.




