quinta-feira, 21 de Maio de 2009

CONSTRUCTO METHAPHYSICO II



Ainda sem se emancipar do estado de vigilia, ou iniciar a miragem fidedigna do sonho, um suposto rei soba mandarim do seu sofá teve prole. Pegou na mão do miúdo e deu-lhe a conhecer as maravilhas da óptica da ilusão:

- Meu querido filho, vede as estátuas da vida. Percebe que se movem, que esbracejam. Que tratam os filhos afectuosamente e lhes repetem as semelhantes deixas que te transmito.

Era tarde de outono, no jardim por onde subiam. Inúmeros poliam estátuas de gente muda. As folhas tombadas se juntavam em construções monstruosas de palácio possivel. Um macaco deu a mão a uma senhora de aspecto decente e ambos juntavam folhas com o pé.

- Estão aqui as grandes estrelas do cinema concreto. Dizia o soba, ora afagando a cabeça do símio ora lhe dando carolos.

Desmaiaram simultaneamente quando se tornou evidente que estavam perante os fundadores da nação. Os quatro, rebolando em paralelo, entraram pela porta do palácio unissono e ficaram em função de éditos. Em suma demente de dogma e exemplo. O macaco esticava as suas pernas em cima do peito do rei e a senhora desenhava um banco num papel de jornal.

- Os parentes desmaiados. Disse o filho dentro do palácio.

Os oito pés juntaram mais folhas e imitaram cem por cento a academia mais sumptuosa. Licenciavam-se montanhas de hómunculos, tinham aulas resmas de compostos. Na cátedra de lógica um padre de batina suja doutrinava com a história de alguém que escorregava do telhado.

- Reparem como o limpa-chaminés escorregou e fugiu para cima. Não existe nenhuma fálacia neste argumento. Ele está imóvel meus meninos. O que se mexe é o não-ele.

Foi assim que os palácios as casas e as construções do intento se prolongaram como apupos histéricos desde o génesis. Foi assim que os pés com chulé juntaram folhas pela eternidade. As grandes construções, solidificadas por ripas de caixotes de fruta, floresceram, e nelas se criaram obras mágnanimes e enganos de pâpillon.

O pai, levando o filho pela mão foi a uma oficina dessas buscar barro e disse filho:

- Chegará o dia em que improvisarás daqui os teus prolongamentos e plasticinarás as relações da tua intimidade. É este o teu reino de êxito.

Não era a primeira vez que a familia se tinha reunido, criações mútuas e formas puras. No papel de jornal, sentou-se um homem completo e aplaudiu. O menino, levando um par de bofetadas, viu nele seu estar adulto e viu nele a sombra do macaco sério.

O soba do principio fora empurrado pelas sínteses contínuas, abandonado pelo filho, raspado pela terra, usando palitos para manter as pálpebras bem esbugalhadas (nunca seria demais o arbitrio errático). Ardeu o palácio de folhas e se inaugurou o palácio de folhas. Jorraram esguichos de esperma para o vestido da senhora. No jardim, a chusma de velhos atirava valetes e damas por entre a apoteose da ilusão. O ocasional sórdido desenhava caixões depois da coletânea de bancos.

- Ganhei a bisca meus malandros! Exclamou o velho de orelhas vermelhas.

Que construção, que arquitectura. Coisas do século antes do século. Ontem e amanhã onde pais levavam filhos pela mão, como os seus tinham feito. Onde sobre a lareira, já longe do jardim, o busto disforme e adunco correspondia Ser vivo.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, construções reais repetidas, espancamentos. Antes do outono acabar um papagaio arrotaria sonaremente grandes jardas.

quarta-feira, 20 de Maio de 2009

CONSTRUCTO METHAPHYSICO I

Se pudéssemos mencionar, com certeza, as qualidades e o modo complexo do que se move ao redor e não a massa física singular ainda que formulaica, a trama etérea ocuparia o lugar na última acepção da palavra. Um campino travestido com panos demonstraria o drama absurdo desses orgulhos e calúnias de âmbito diminuto. Porque na definição dos estados conglomerados e conectos, eles exemplarmente se sumiriam nesse gesto mesmo de restringir múltiplos touros. Se fossem passiveis de definir não seriam eles mesmos.

Ele vai e entra a desafiar a besta e oferece o peito ao labirinto, e voa com os pés no ar. Dá piruetas na atmosfera lívida da grande praça, onde é observado por sósias virados de costas. O intento da definição se trocaria por três voltas com sapatos a sair para cada lado. Caíria inefavelmente pelo que ao seu redor se encontra sem poder saber real, apenas o eterno estar.

Depois de malograda a mundividência, porque partiu de seu ponto, não voltará a empregar quaisquer meios de comunicação . Começará novamente a correr à frente de coisas onde puder segurar o seu cachimbo ou efabular o porte de um Homem, sem notar que no seu quarto, o torciam estranhos arames da ubiquidade. De cada vez que se levantava era baixado à vassourada e feito à imagem de anjo. No decorrer da salada russa caiam copos ao chão e a senhora de sobretudo e galochas fugia atrás de um touro.

Seria noticia: ao sair de parâmetro o cidadão x foi colhido pelo desconhecido ou meramente factual. Mesmo no simples acto de querer ser pragmático para comprar tabaco ou ninharias. Restou a evidência, no seu estricto senso, de algo aparentemente normal e sem nenhum antagonismo – para lá daquele que seria de considerar na alma. A postura do individuo em questão era corrente no paradigma de perseguido por tropas fandangas e gigantones. Normalissimo. Certo merceeiro foi abalroado despudoradamente no meio deste quotidiano e violado por duas gordas. Nada de novo, a não ser uma banana esmigalhada no focinho do policia.

O original não era campino ou toureiro (cidadão incógnito) e nem tinha sido parido do ventre para fora. Isso seria Irrelevante. A correlação fora naturalmente posta a colaborar com o meta-relativo anterior, relativo de seu ponto de vista, e a absoluta e implacável dureza do que se lhe seguiria em circunstâncias dadas (e estas fazem a vida).

Com efeito, as qualidades e o modo complexo, para se transmitirem nesses espectáculos, teriam de consistir obrigatoriamente na constante marrada dos objectos e dos sujeitos no fim de tal dualidade. Se aquele fulano voasse, impelido pelo hipotético touro ou similar, não teria prestado atenção no silêncio, seria principalmente fulano – o único definido: da mesma maneira fabricaria deuses e porteiras. Mas poderia também voar em piruetas sem razão conhecida e cair de cu no tribunal, com o chapéu escavacado.

Portanto, se se incumbiu, presunçoso, atribuir algo ou mesmo palavrões nomeados à pressa ficará certamente o concreto fulano como os demais amassando pão com a bengala do cego. A essência ubiqua das coisas, ao ter presença no exterior dos pensamentos nos derrota à partida, e os pensamentos ao terem presença partilhada num nulo interior-exterior cósmico sacrossanto nos põem a virar embrulhos virtuais no ar. De que lado poderá substantivar o desígnio sustentado? O melhor é dormir sobre este assunto, enquanto as pessoas dormem todos os embates são menos ficticios. Ficam suspensas as premissas importantes ou não-tão importantes que sujeitos poderiam enfeitar nas entrelinhas.

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O SOL (POT DE CHAMBRE)


Que bom ficar ao sol. As coisas se apagam se ofuscam, cena de isqueiro e papel, outros vêem-las claramente curvando em pontos de interrogação. De qualquer maneira seus nêmesis ficam com a tabela – “incógnito” – pendurada ao pescoço. e Lá vamos entrando p´lo portal do sonho amarelo como bifes de burro bem-passados.

Na caverna de Morfeu existem sonhos amarelos, infelizmente, e existem papoilas vermelhas para decorar os reais que não podem caber. Engano bacoco. E o sol resume-se a pinturas de sol ao lado de fotografias de gente mal-barbeada. “O Sol não tem espaço dentro da caverna”, é, quiçá se coloque num suspenso face a papoulas roçarem pelos tectos baixos da razão. Quiçá a beleza se apresente em quadros e fotografias cópias. natureza se roubando à presença, sob o produto humano. Permanece sonho onde metaforizar sol, para essa ideia ilusão erro de nos abotoarmos em ficticios e prolixos assuntos entregues de bandeja. Dia lindo a soldo dos iludidos onde combinam os conceitos dóminos e perseguições de familias na praça.

Para o orador em cima do caixote de fruta, para o Miguelangelo enrolando trapos, os segredos do universo e da alma são impossiveis. Os burros bem-passados compram pré-concebidos justapostos a paisagens concretas. E o senhor de gravata montado critica a sociedade enquanto vai de comer moscas..

A transcendência das coisas de facto traduz a incapacidade de nos apoderarmos delas e a necessidade lógica de intrometermos desenhos animados e estáticos no meio das páginas puras. Que dia solarengo cheio de mentiras e complexos. De reparar nisto apenas porque o exemplo dado não cabe na caverna, o verdadeiro verdadeiro não existe, cabem somente um Portugal, uma China e os países do mundo. Se adicionassemos as circunstâncias mais básicas e gerais, era ainda mais instântaneo e insultuoso o mostrar contéudo de mentes envergonhadas.



quarta-feira, 29 de Abril de 2009

«It's all over now: write Eddy is no more»



No meio da fauna um homem que encontraram com roupas que não as suas. seu trejeito facilitou o epitáfio destas letras, sem a tautologia dos ritmos esconsos, sem o estilo grouge de um delirium tremens – perturbações somáticas da condição eviterna – com o infinito passar p´las ruas da dolorosa existência adjunta à condição inevitável do Ser. aqui aqui, e saber que o simples facto de jamais um ou outro perceber ou ler este epitáfio, lhe dará a força do definido subjectivo em geral.

Todos os homens nascem e morrem inscritos nesse caderno de conclusões sem escape, sem estarem mesmo escritas. Se de repente (agora mas foi noutro tempo) este epitáfio se ajusta a essa generalidade subjectiva, é um édito para raças e credos de que ninguém está alheio. Aonde permanece o infinito? Aonde qual eterna estar morremos vestidos com calças camisa chapéu de palha e sapatos que não nossos mas nossos circunstancialmente?

Se tratamos de uma pessoa, o particular, o fragmento explicando do geral, talvez a conclusão nos faça chegar a mim deitado, pleno das maldições sinónimas, das alegrias sorumbáticas. Se tudo acaba, nem começado nem fim no próprio lugar de quem caiu desamparado e incoerente como a imagem dupla de me rebolando próprio, e, raciocinando disso, esteja ali mais inevitavelmente concreto como nunca fora, é certa a repetição. Delineado óbvio que favorece o estudo do corpo supinamente sobre noite fria, findo mais vivo do que outrora. pois então.

Ficou presunto. Uma perna levantando chão, o braço praticando rábulas, objectando, ele, mandado em acaso, ao que erroneamente temos de entendimento.

segunda-feira, 27 de Abril de 2009


Nas cercanias da noite os fantasmas ansiosos procuram no meio das flores dos alpendres

Encontram um lavatório partido – objecto da vida quotidiana alheia– e se interrogam de quem seria o curioso monumento

Que funcionários do abismo abraçam estas canções irrisórias, de sinais da normalidade em marcha, e nesse contexto – vulgar e concreto – encontram as coisas arredadas violentamente?

A voz que procura p´los becos e p´las almas, prova de reais e vibrantes ausências dentro de quem fala no vento

Uma vida suscitada por tingidos banais ou nâipes orgânicos, encontrando nos sentimentos e nas existências de outros os simples desenlaces da força e as alacres leituras do ventre

E o conjunto das figuras que habitam estes lugares tentam imitar pássaros no seu nunca serem apanhados, tentam morrer longe nuns poemas

Quem fala derreado ao pé dos arbustos e caminhos baixos, ao comprido das escadarias e das arcadas?

Quem se confunde nesta busca que encontra somente os vestígios evidentes das vidas que fugiram antes das batalhas em que se perdeu a razão?

Houveram vultos gastando pantufas nas mansões de Hades, houveram espantalhos que tiveram movimentos sinceros e humanos

Se lhes indicaram conceitos pardos ou fardaram com roupas de caricatura, ainda assim deixaram a marca de não serem puramente inventados – um lavatório, uma agenda desbaratada – e afinal propícios para se jogarem às escondidas entre eles, símbolos da distância.

sexta-feira, 13 de Março de 2009

SANTOLA DE AÇO




A carapaça de aço que o ser humano constrói à sua volta é uma segunda pele. Resistente, flexível mas insensível, isola o ser e torna-o frio. É símbolo da modernidade, é alienação e é produto da rejeição por parte do homem da sua própria imagem, reflectida nos outros. O desenvolvimento humano não diminuiu a disputa mas deu-lhe novas roupagens, formadas no seio de instituições que medeiam as relações humanas. Estas complexificam-se, multiplicam-se e levam à impossibilidade dos fins, que se perdem na deriva pelo emaranhado de meios, e à inviabilidade dos valores se imiscuirem no conjunto das normas sociais. Deus morreu, a conduta e a própria vida humana transformam-se em problemas técnicos. A realidade polissémica é fragmentada em provincialismos que descartam quaisquer noções de verdade, beleza ou justiça. Resta, aos que tinham aspirações, olhar de fora para esta amálgama de canalhas cegos que se acotovelam e, na ânsia de se sentarem em tronos feitos de esterco, surripiam dejectos uns aos outros.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A ARTE DO CHORÃO



Alguém chora tapando a cabeça com os braços, articulando magia, coisa que vai falar com o mundo; caracteres se desenham com fôlegos mandarins vulgares. que provaram sobejamente a parcimónia, não duvidam, um rosto banhado de ranho e lágrimas de olhos de porco. Mas a liberdade amarga ou pura, vai para esse diálogo procurando comida, esse fantoche chorão podia estar rindo sem razão. O facto da liberdade contrariar o ensejo para aparecer num salão de visitas com a mesma tromba que eles, os sorrisos do inane e forçado.

Numa época onde a vagina do finito se escancara para a facilidade de passaralhos ejaculadores, as prosopopeias do género personificam-se mais na dificuldade. uma dificuldade de enfim lançar os braços ao ar ou de se encolher atemorizado numa assumpção ontológica. eis a posição fetal, a liberdade do aniquilamento e da vida.
Posto que a muitos tal faz espécie, quando passarmos pelo vagabundo chorão ou fantoche do arrependimento, podemos disfarçar. e, como nem somos fieis à própria natureza, nem sei se algum lhe mandará moedas pretas para a caneca. a maior parte de nós será de engalanar num poleiro para aves de criação, amaldiçoando aqueles poucos sem vergonha do ridiculo da luz.