Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

“TENHO VONTADE DE LÁGRIMAS”



Quando os sentidos, completamente exaustos do artificio empírico, somente transmitirem nessa redundante sensibilidade o canónico pórtico do céu mascarrado de sangue seco

Um superlativo querubim a palitar os dentes, uma morte louca. Os vizinhos do segundo esquerdo, que entretanto passaram pela nomenclatura, completamente lívidos testemunhando o absoluto e puro impasse deles mesmos

Caíram no sono das andorinhas, evaporaram com candeias caindo na água estagnada. As estrelas nocturnas que acometeram a verdadeira panóplia dos tais sentidos, sendo incineradas juntamente com as bananas e os cocos da velha negra

Um alter-ego vermelho se produziu das coisas, lhes sucedeu naturalmente seguindo as premissas disponíveis

Continentes naufragados de forma física algo esdrúxula, agrupam bandos de animais que com as suas patas duras golpeiam as superfícies extensas do veludo natural

Que em espécie de trapos de criança pretendem haurir a espécie de pórtico, o único a que estes sentidos proporcionam uma vida de açúcar de lágrimas para garantir o manjar de carpideira gorda

Oh terrível saciedade que abrigaria os que dela dependem, à satisfacção da memória no rito da saudade. A que o correlato, despido vorazmente por quantas mãos brutas diria que os sentidos que nos deram essas coisas, só respondiam à nossa vontade cínica de querer perdurar, angelicalmente, num tempo controlado pela lei dos objectivos singulares

Ai as estrelas frias! Uma poesia toda ela de um cio corado por lágrimas e flores no colo do Outono, das árvores que as crianças afirmam estar viradas ao contrário

Continuando uma véspera rouca de tanto agitar estes ramos estas raízes na claridade ofuscante das bocas que se sentem esfaimadas e esqueléticas pelo pão de espectros

Estrutura do possível, onde os Grous imperiais, depois de esbracejarem são abatidos a balas de pura prata de pura lua cheia para se dobrarem em significados de papel

Um pórtico de céu, um pórtico de céu! A comunhão ardente dos sentidos que nos mentem, com a realidade que queremos; ainda Paris ou o palácio de Versailles que nunca viram os franceses

Istmo – vaga – víscera,

o que está por baixo enrola o céu como um cigarro do tabaco mais reles, que entredentes irá subir, entre a tosse da pessoa que sobe o rio molhada até ao cu das calças num mar de lágrimas

Farrapo – névoa – alma

Pois ainda antes o Deus da insanidade autografou o occipital sem pedir sequer desculpa, num Olimpo de espuma cheio de frio...

Sábado, 5 de Março de 2011

flores




Àquilo que nos convém aprovar ou designar, nunca se formará o essencial e subterrâneo mas o patético e freudiano esgar pífio de uma primavera estuprada por estereótipos e vilipendiada por bandidos fardados de roupa barata. as flores da primavera somente poderão ser colhidas num único acto,
uma meia enfiada numa mão de algo sagrado,posta a ventrilocar umas anedotas ou mudas, ou chilreadas.

MENTIRA ÚTIL

enquanto as essências divinas escorrem abjectamente subjectivas apenas em predicados de cabeleiras brancas onde se aninham pássaros esquálidos, sem rigor

essas andorinhas sebentas que nos mostraram a beleza agnóstica, puramente escondida nos baús por entre cabelos brancos e caspa, equivalendo a inalcançada, longe, arredada, mesmo dolorosa

O ESPLÊNDIDO INFERNO DA MENTE

nossos cabelos de velho e nossa morte de bengala asada entre gritos de pedidos para limpar o cu borrado

Oh! Como estes pássaros nos abandonam vincando em seus bicos para as dimensões da diferença, os desejos dos quais são uma parcela ainda livre de juventude eterna

invejamo-los pois são os reflexos queridos de quando jogávamos à bola no jardim da escola

e lhes temos ódio por nos recordarem que uns cadáveres tiveram asas.

Terça-feira, 1 de Março de 2011

devaneios de segunda feira


entende-se como uma evolução natural da sociedade, ou auto-regulação do seu modo, como a dependência e extrapolação directa do dinamismo essencial e endógeno da sua psyche colectiva a partir da psyche ela mesma anterior e apriori da formulação dos valores. A organização social é um acidente ou suficiência decorrente da necessidade ela mesma, de o ser humano se constituir em primeiro lugar nos recantos recessos da sua herança animal.
seguindo uma atenção mais pragmática do que puramente essencial, a sociedade produz-se quase irracionalmente num corpo que precisa dessa manifestação de si, como prova da vitória sobre a animalidade. A construcção disto é natural na medida em que pretendendo derrotar ao mesmo tempo que efectiva, se tornou a factualidade mediata por outros e mais instintivos poderes que se regojizam no falso da questão - a única forma da apresentação real se multiplicar e permitir a inclusão de mais do que um.

a formulação natural da sociedade respeita, e opera, em função da natureza ou suficiente da matéria orgânica e colectiva se aproximar de uma estética visível e atreita a macacos loucos e aves do paraiso, uma instintividade perversa que simplifica tudo o resto em pormenores supérfluos ou dadores de sentido, que têm o seu decalque directo ou menos directo no ajuntamento abusivo e esquizofrénico e no urbanismo anguloso e tangente de que se veste a máscara fidedigna das identidades, sem saberem bem porquê.

a irracionalidade chega a um ponto onde se torna exequível, ou se assemelha a uma forma organizada.

como se administram em paradigmas de inocuidade transcendental, os planos sociais são os meros esqueletos de um plano onde a própria natureza está além dos valores, onde são quase automáticas essas manifestações de hipocrisia lida em facto e expressa num modo de organização sujeita e masoquista e empurrada a cadeira-de-rodas, um aposteriori directo na sua simplicidade e permissivo no seu âmbito de liberdade ao acentuar desse cortejo de animais escondidos.

o único isqueiro que tem sempre gás foi-me oferecido por um sem abrigo.

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011




As palavras chegariam? ao Mundo inenarrável onde inexprimido e impossibilitado disso, o entendimento se resume a tácita e cúmplice mudez do estático e puramente estético plasticizando em grandes pedaços de lama coladas com cuspo, num semblante monolitico. Ainda que nesse elenco estranhamente bizarro assome o familiar de gesticulações quotidianas geladas em pragmatismo da inconsequência, gestos do evidente sentado no trono barato da pleurisia cerebral. Festejam sorrindo esturdiamente, com efeito, sem qualquer tipo de vocabulário a não ser o que usam para mendigar coisas.

Pois essas palavras que possuem, algumas, não lhes valem para designar a trama complexa, mas somente para chamar ladrões de não sabe aos carcereiros de si que próprio se farda. Contudo, imersos não de um Devir dramaticamente negativo, mas apenas e segundo uma lei que lhes escapa parecendo zombar da sua forma embrulhada sem discurso certo. Serão porventura crianças felizes com os brinquedos que lhes foram destinados, e lhes bastam....

Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

O mundo das palavras



No caminhar desinteressado rumo ao entardecer,
a muda inquietação do jardim torna-se espessa
e pesada. O hiperplano da visão desdobra-se, implodindo em espaços e tempos largos,
incivilizados.
Abruptamente estala-se o verniz e saio do mundo das palavras.

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

ATLAS, O NÓMADA




Qualquer espírito ficaria inquieto se, na semi-lucidez de uma noite húmida de Inverno, sentisse apoiada sobre o crânio toda a massa do firmamento e, na palma dos pés, o empurrar da superfície terrestre que lhe reage violentamente. Que força terá maior existência que o desejo de reencontro recíproco entre o alto e o subterrâneo?

Pensar que o corpo separa é puro engano, este nada sabe do que está acima ou abaixo, a montante ou a jusante. Ainda menos quando ofuscado pelo astro negro que escurece o dia durante a noite e que exige às almas dedicarem-se, como marionetas ébrias, aos ritos do sangue.

O peso que se faz sentir nos torneados dos tornozelos é de origem desconhecida, embora se suspeite desde há muito que é um ataque ao que é dito, ou pelo menos pensado, por aí. A palavra corta a realidade em fatias e a mentira cobre-as com geleia de frutos silvestres: alusão irónica ao pequeno-almoço canibal dos burgueses.

Comprimida, a existência nómada persegue a posição futura desta desunião, descrita nas páginas do livro que escreverá antes de nascer, buscando uma linha de fuga perpendicular à insustentável realidade, sem se aperceber de que se trata da sua morte.

Por sorte é-nos vedada qualquer consciência disto.

...

"Era uma vez, com mais duas seriam três, quatro homens e cinco mulheres, com seis olhos sobre sete bocas. Amavam-se e agrediam-se até ficarem feitos num oito. Era sétima a hora, do sexto mês, quando a quinta mulher disse ao quarto homem para se tornar o terceiro espelho, com mais duas não o faria sequer a primeira vez."

No condensar pulsante de um número-género da multiplicidade andrógina só interessa a cadência que embala as estrelas desde o nascimento até à morte. Tudo o resto é ruído de um pedal motorizado.

...

As vozes provenientes dos volumes impeditivos ao sonambulismo quotidiano, que nos chamam estranhos nomes mas sabem quem nós somos, quero-as eco da alegre cantiga assobiada pelo errante.

A sensação de ser esmagado por existências, pela repetição eterna da una experiência, vista através de infinitas lentes contorcidas, quero-a arrepio de ser o absoluto.


Sexta-feira, 13 de Março de 2009

SANTOLA DE AÇO

The Shell is Made of Steel (Carapaça de Aço) from Siamese Panoptic.

A carapaça de aço que o ser humano constrói à sua volta é uma segunda pele. Resistente, flexível mas insensível, isola o ser e torna-o frio. É símbolo da alienação secular moderna e é produto da rejeição por parte do homem da sua própria imagem, reflectida nos outros.

O "desenvolvimento" humano não diminuiu a competição mas deu-lhe novas roupagens, formadas no seio das instituições que medeiam as relações humanas. Estas complexificam-se, multiplicam-se labirinticamente. O resultado é a impossibilidade teleológica extra-instrumental, dos fins últimos, cuja vista se perde num emaranhado de meios: a inviabilidade dos valores se imiscuírem na normatividade real.

O Homem morreu, a conduta e a própria vida transformam-se em meros problemas técnicos. A realidade polissémica é fragmentada em provincialismos que estrategicamente descartam quaisquer noções de Verdade, Beleza ou Justiça.

Resta, aos que tinham outras aspirações, olhar de fora para esta amálgama de ratos cegos, que se acotovelam e, na ânsia de se sentarem em tronos feitos de esterco, surripiam os dejectos uns dos outros.